Resultado positivo não conta a história inteira

Entenda por que um resultado positivo em exame toxicológico deve ser interpretado com cautela. Veja o exemplo das sementes de papoula e testes positivos para opiáceos.

TOXICOLOGIA FORENSE

João Víctor Fernandes de Souza - Investigador Técnico Científico

6/27/20262 min read

Um resultado positivo em exame toxicológico pode gerar consequências enormes.

Pode afetar uma relação de emprego. Pode influenciar uma disputa familiar. Pode repercutir em processo criminal. Pode gerar comunicação a autoridades. Pode comprometer reputação, guarda, habilitação, contrato ou conduta profissional.

Por isso, um resultado positivo não deve ser tratado como frase isolada.

Ele precisa ser interpretado.

Casos envolvendo sementes de papoula ilustram bem esse problema. Em situações noticiadas nos Estados Unidos, mulheres relataram resultados positivos para opiáceos após consumirem alimentos com sementes de papoula, como bagels. Em alguns episódios, os testes levaram a notificações a órgãos de proteção infantil e a consequências familiares relevantes.

O ponto técnico não é afirmar que todo positivo para opiáceos decorre de alimento.

Isso seria tão incorreto quanto afirmar que todo positivo significa uso ilícito.

O ponto técnico é outro: o resultado precisa ser lido dentro do método e do contexto.

Sementes de papoula podem conter ou carregar traços de alcaloides opiáceos, como morfina e codeína, em razão de contaminação durante colheita e processamento. A depender da quantidade ingerida, do produto, do tempo entre consumo e coleta, da sensibilidade do teste e do ponto de corte utilizado, o resultado pode gerar interpretação inadequada se for tratado sem confirmação e sem anamnese.

Essa é uma excelente lição para a toxicologia forense e para a assistência técnica.

Antes de aceitar a conclusão de um laudo, é necessário perguntar: o exame foi de triagem ou confirmação? Qual matriz foi analisada? Qual método foi utilizado? Qual substância foi detectada? O resultado foi qualitativo ou quantitativo? Qual ponto de corte foi aplicado? Houve confirmação por método mais específico? Houve investigação de histórico alimentar, medicamentoso ou clínico? O tempo entre possível exposição e coleta foi considerado? O laudo diferencia detecção, exposição, uso, intoxicação e conclusão jurídica?

Essa sequência é essencial porque “positivo” pode significar coisas diferentes.

Pode indicar presença de uma substância. Pode indicar presença de metabólito. Pode indicar contato anterior. Pode indicar uso terapêutico. Pode indicar exposição alimentar. Pode indicar uso ilícito. Pode indicar interferência analítica. Pode indicar apenas uma triagem inicial que precisa ser confirmada.

Sem análise técnica, todos esses cenários podem ser tratados como se fossem a mesma coisa.

Não são.

Toxicologia não é apenas encontrar uma substância. É interpretar o achado.

E interpretar exige considerar método, matriz, tempo, concentração, ponto de corte, cadeia de custódia e contexto.

Esse raciocínio é especialmente importante quando o exame produz consequências jurídicas, trabalhistas, familiares, administrativas ou sanitárias. Um teste feito sem consentimento adequado, sem comunicação clara, sem confirmação robusta ou sem avaliação contextual pode gerar dano desproporcional.

Em perícia e investigação técnico-científica, a pergunta não deve ser apenas: “o exame deu positivo?”

A pergunta correta é: “esse achado sustenta a conclusão apresentada?”

Essa diferença muda o caso. Porque o resultado é apenas uma parte da prova. O restante está no caminho: coleta, método, documentação, histórico, confirmação e interpretação.

Em exames toxicológicos, nenhum resultado deveria ser interpretado fora do método, da matriz, do tempo e do contexto. Triagem não é confirmação. Detecção não é intoxicação. Resultado não é conclusão automática.

Fernandes

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